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Tudo é muito fácil quando os recursos não são tão escassos.

Volta das férias. 

De duas semanas de praia no forno que estava o Rio de Janeiro, de volta para o deserto: quando chegamos (eu e as crianças), a secura até que não estava tão intensa, havia 48% de umidade relativa do ar.


Quando ainda estava no RJ, nacionalmente começou a reverberar a "crise" do Governo do Distrito Federal. Crise esta que pode ser resumida a uma pergunta: onde está o dinheiro ?


No Brasil, a não tão pequena fração do território nacional que contém a cidade cujo papel político é conter a capital política e administrativa do país não é um território administrado pela própria União para que sua sede funcione da melhor maneira possível.

O Distrito Federal (DF) brasileiro é um ente federado, digamos, sui generis, assim como o é a própria federação brasileira. O DF é estado e município simultaneamente.

Tais características deveriam fazer do DF um lugar onde o quê não pode haver é falta de dinheiro para os que administram a organização social chamada Estado. Por que ?

Porque o GDF arrecada todos os tributos de um município, o que, convenhamos, salvo as metrópoles, não significa muito. Também arrecada todos os tributos de um estado. Sendo município, recebe dinheiro do mecanismo de redistribuição tributária de nível municipal, o Fundo de Participação dos Municípios. Sendo estado, também recebe dinheiro do Fundo de Participação dos estados.

Se não bastasse, como o DF contém a capital federal, a cidade-museu Brasília, ele também recebe recursos financeiros somente por este fato. Em suma, há cinco fontes de recursos onde os impostos nacionais, estaduais e municipais, entram para aqueles que governam o GDF e a tecnocracia que governa sem ser eleita.

Aqui é o paraíso do planejamento estatal, ou seja, daquele grupo de pessoas que se organiza de tal forma, que cria uma certa racionalidade que justifique retirar renda dos indivíduos e redistribuí-la para outros indivíduos e grupos. Aqui é o paraíso do Estado. Desde a criação de Brasília, já um ato deste grupo, aqui é um canteiro de obras. Assim foi e assim continua sendo. 

Então, ou a arrecadação geral caiu de forma significativa, ou os tecnocratas gastaram muito. 

Há um ou dois dias, a imprensa apresentou a reforma e construção de algumas edificações que deveriam servir de residência funcional para aquele que ganha a eleição aqui no GDF: http://oglobo.globo.com/brasil/ex-governador-do-distrito-federal-gastou-15-milhao-em-reforma-da-residencia-oficial-15037919.

Estas edificações e o contexto onde se inserem lembram-me muito o caso de um famoso ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB), o Sr. Timothy Mulholland. À época, os opositores ao grupo de Timothy conseguiram uma eficaz arma de denúncia: a reforma do apartamento funcional do Reitor. Isso provocou forte reação de parte significativa da tecnocracia e de seus filhos.

Para refrescar a memória:

Um extrato da acusação política: http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,ex-reitor-da-unb-e-acusado-de-participar-de-desvio-de-r-2-1-milhoes,753321

Ocupação da Reitoria da UnB: https://www.youtube.com/watch?v=5nBclshuYtU

Um extrato da conclusão judicial: https://www.youtube.com/watch?v=VMRfuHWDN3E


É possível que o ex-governador seja acusado de improbidade. É possível que algum tecnocrata seja acusado. É possível que todos sejam absolvidos. Pode ser que alguém seja escolhido como exemplo e condenado por algo. Sei lá, tanta coisa.... inclusive alguns anteontem eram contra Timothy e ontem foram governo.

Para mim, a pergunta mais importante é: para onde foi o dinheiro que entra de tantas fontes ? 

Professores em greve, profissionais da saúde em greve, transporte público horrível. Engarrafamentos em pontos-chave. Violência de diferentes tipos (aqui ela varia em função da renda e do local de moradia, assim como em qualquer lugar, tanto em relação às vítimas, quanto com relação aos executores).


Há algo errado em nosso arranjo institucional em diversos níveis e aspectos.


O tempo passa e no DF nada muda. E no Brasil ?

Quando as pessoas que necessitam das políticas públicas de saúde, educação, segurança, transporte, etc, se cansarem de ficar sofrendo e reagirem de forma ativa, o incômodo deverá ser razoável. Quem paga ?  Os mais pobres pagam, é claro: impostos, inflação e juros e o não-atendimento de suas necessidades naqueles serviços onde o Estado é o responsável.

Como gosto muito de música, estas linhas zigue-zagueantes, escritas em português lá não muito bom, têm uma trilha sonora perfeita: Brasília.




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